segunda-feira, 28 de abril de 2014

Inveja do cigarro



Li em algum lugar que, na guerra, há a inveja dos mortos. Os vivos, ao olharem para um cadáver no campo de batalha, pensam: "acabou o sofrimento deste".

Eu tenho certeza de que é assim.

Eu tenho inveja dos fumantes.

Várias vezes já aconteceu comigo. Parar e observar um fumante - geralmente uma garota, uma mulher jovem - talvez seja mais fácil para eu ficar parada observando sem chamar a atenção. Talvez seja por identificação.

Eu não fumo, nem quero. Mas invejo. Os fumantes tiram dez minutos do seu tempo. Os fumantes vão para um local ao ar livre, sozinhos ou acompanhados, e, naqueles dez minutos, eles são livres para se envenenar.

Os fumantes sozinhos olham para o horizonte com olhar perdido e sorvem profundamente aquela fumaça insuportável. Tragam o intragável. Jogam para dentro as suas amarguras, tragam, guardam muito profundamente dentro deles, e, depois de longos instantes, devolvem ao ar, em cortinas, cachoeiras, anéis cinza que saem pela boca, ou jatos possantes pelo nariz. Em que teriam transformado seus pensamentos e suas dores?

Acompanhados, os fumantes se retorcem entre caretas e sorrisos, se dividem entre tragadas e conversas, apertam as pálpebras e aparentam segurança. Aproximam-se uns dos outros, quase afetivamente, para pedir fogo, acender o cigarro uns dos outros, e aparam com as mãos o vento. É um belo gesto, um ritual. Sobraram tão poucos rituais na nossa sociedade! Fumar acompanhado é socializar à moda antiga, entre corpos, compartilhando o mesmo ar, poluído.

Definitivamente, checar mensagens no smartphone não tem a mesma elegância, não vale como dança, não tem parceiro - fisicamente presente - possível.

Ah, como o cinema já explorou essa imagem sensual e firme de quem sabe onde põe as mãos enquanto fala, de quem fica sozinho em um café parisiense, ou recostado sobre a moto, ou na cama, depois do sexo. Há alguns anos, se fosse pelo cinema, ninguém dormiria depois de fazer amor. Tudo que dá vontade, segundo aqueles roteiristas pré-politicamente corretos, é olhar para o teto, ou pela janela, e fumar.

Ninguém interrompe os fumantes, seus momentos são sagrados. Enquanto o cigarro não acaba, o mundo, a vida, o trabalho, tudo fica suspenso. O cigarro para o tempo. O cigarro, no meu ingênuo olhar não fumante, revoga a culpa.

Se alguém diz: "preciso ir ali fumar um cigarro", isso é tão natural! Se disser, "vou ali respirar um pouco", olhares atravessarão o ar.

Fui várias vezes aos fumódromos sem ser fumante. Precisava ficar ao lado das pessoas que conseguiam transformar os venenos da alma e convertê-los em subprodutos da queima do tabaco. A fumaça deles não me faz nada bem. Meus venenos já circulam sozinhos no meu sangue, autoproduzidos, descarregados em doses inebriantes. Não preciso dos que vêm de fora.

No nosso mundo doente, estar doente é permissão de pausa, então ficamos doentes porque precisamos descansar sem culpa. Fumar é doença, e só assim muitas vezes nos permitimos respirar. Desde que não seja ar. Desde que seja veneno.

Culpa é doença, fumar é doença.

E inveja?









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